Acorda, cidade. Já é carnaval. E o que vejo nisso?

carnavaldoapartheid

A cara séria e o jeito carrancudo não fazem com que eu deixe de observar coisas.

E o carnaval é uma excelente época pra isso. Comecemos com a mudança do formato do mesmo. O tal do furdunço está dando certo, tendo adesão da classe dominante, o que é algo interessante no ponto de vista cultural. O formato atual não vai durar, a prefeitura sabe disso e vem trabalhando pela mudança. E uma das coisas mais impressionantes é como podemos fazer analogias do que se vê.

Alguns dos blocos são, basicamente, uma reprodução contemporânea dos engenhos de açúcar de antigamente. Sim, com as sinhazinhas, os senhores do engenho e as figuras mais importantes: os escravos e os capitães do mato. Ora,os dois primeiros não vou nem contextualizar tanto porque é fácil de se perceber (lembrem daquela icônica foto do rio branco às margens negras passando pela avenida sete). Até me pergunto como esses dois grupos exemplares do carnaval conseguem, ainda, sair em blocos, já que em muitas das vezes é nítida a aversão à miséria inerente ao carnaval de Salvador. Não adianta ouvir Saulo Fernandes (outrora da Banda Eva, uma das sobreviventes do antigo carnaval de blocos onde gente bonita e simpática não podia ter muita melanina…) e sair cantando a positividade, o amor e coisas do tipo, fingindo se importar. Neste lado sou bem dicotômico, canta coisas bonitas, África iô iô e só falta ter alergia aos cordeiros. Não esquecendo deles, é claro. Todo ano temos problemas acerca dos direitos destes trabalhadores temporários. Todo ano alguns blocos, entupidos de dinheiro, esquecem de separar o dos mesmos. Muitos são pessoas marginalizadas (à margem da sociedade) tentando ganhar algum dinheiro e, muitas vezes, também aproveitar o carnaval do lado bonito da corda. Vejo e acho legal. Alguns se empolgam, não estão preocupados com cores ou camisas, tentam algo com as transeuntes, dançam, abaixam a corda para alguém passar e de repente apanham. Apanham de algum segurança do bloco ou um cordeiro mais velho que, de camisa diferente, dita para onde os mesmos tem que ir. Os dois não estão tão distantes na esfera social, as vezes, mas o poder muda muito as coisas. Ora, convenhamos, achamos os outros dois personagens da história, os escravos e os capitães do mato.

A partir disto, como não achar este modelo de carnaval algo retrógrado? Como não pensar como algo bom a popularização de fato do mesmo?
E, com a cooperação dos governos municipal e estadual, estamos chegando perto disso. Creio ser algo de anos, mas chegaremos à plenitude do baixar de cordas.

Quanto à aversão à pobreza? Essa vai perdurar, afinal, com camarotes, todo dia teremos um carnaval dentro do carnaval, uma festa feita para grupos divididos pelo que estão dispostos a pagar e ver lá dentro. A desigualdade social demora de ser percebida (ou deixa de ser sumariamente ignorada) e trabalhada de diversas maneiras. Que ao menos na diversão do povo ela deixe de existir, dando ao menos o direito de muitos de sorrir, independentemente do bolso.

Anúncios

Mudança de formato.

Seguidores,

Resolvi dar uma mudada no formato.

A depender do dia dou uns devaneios de analisar certos pontos e escrever de maneira bem observadora, gerando textos interessantes. Logo, vou explorar esse espaço para isso, já que malhar a cabeça, botar essa cabeça pra pensar, é sempre bom de vez em quando (não de vez ou nunca).

Tirando o culto ao ego do formato anterior, que não foi apagado, procurarei escrever mais e de maneira mais precisa, sem ser apenas textos de opinião, mas algo que convide ao debate, acrescente e, positivamente, diminua.

Então, resgatar irei, se possível, análises antigas e farei o melhor nas novas!

Até mais!